Thursday, October 26, 2006

Dez aspectos de como o intelectual médio brasileiro raciocina (mas têm vários outros!)

I - Troca fato por intenção

A gente diz um fato. O ouvinte entende como expressão subjetiva. É esse o jeitinho mais característico do brasileiro metido a sabichão. Por exemplo, você diz que, segundo o atual conhecimento sobre Inquisição, o número de mortos certamente é muito mais baixo do que antes se dizia. O ouvinte então acha que você está manifestando simpatia pela Igreja. Não, burro, estou mencionando um fato. Isso leva ao problema nº02.

II - Busca motivação oculta na fala do adversário

Digo que a esquerda é malvada porque defende um regime que matou mais de cem milhões de pessoas. O ouvinte, esquecendo o que eu disse, passa a desconfiar das razões que me fizeram dizer o que eu disse. Se escrevo num jornal, acha que sou agente da CIA. Se tenho dinheiro, digo em prol de alguma organização. Se sou apenas uma palerma que escreve em blogs, acha que uso pseudônimo. Na "melhor" das hipóteses, buscarão um motivo psquiátrico para eu dizer o que eu disse: "ela é mal comida", "ela é frustrada", "ela é neurótica"...

Outro exemplo. Se digo que não gosto de Renovação Carismática porque é uma zona, vão pensar que sou da Opus Dei ("Opus Day", conforme li um dia...), TFP ou o raio que o parta. Se falo mal da Opus Dei, vão achar que sou herética, portanto de algum grupelho. Aì vão me enquadrar como membro do grupelho e descer a lenha em mim. "Guelfo para gibelino, gibelinos para guelfos".

III - Não consegue estabelecer nexos causais, ou, em outras palavras, não sabe a relação entre causa e efeito

Explicar uma coisa é conhecer pela causa. Legal, Aristóteles já dizia isso. Isso quer dizer que você, quando vai conhecer, parte do que é próximo para o que é mais distante. Ok, ficou filósofico e abstrato demais. Vamos tentar de outro jeito. Para conhecer alguma coisa, você parte do dado em direção à causa do dado. Quando você vai explicar, faz o caminho contrário: parte da causa para o dado. Você sabe fazer esse vai-e-vem porque domina as causas do dado como o próprio dado. Então se você for explicar como se faz uma conta, você tem de dominar os fundamentos da aritmética e, a partir daí, pode aplicar essas propriedades na resolução da conta. O cara que melhor explica é aquele que tem mais conhecimento das causas do que está dizendo.

Se você não consegue fazer esse vai-e-vem, que é trabalho da inteligência, você nunca vai entender porcaria nenhuma, por mais que expliquem. Por quê? Porque você não consegue estabelecer nexos causais entre os dados. Como não entende as relações entre as coisas, tudo vai parecer uma confusão do cacete.

O brasileiro tem uma dificuldade enorme de estabelecer nexos causais. Ele não consegue acompanhar um raciocínio. Geralmente isso se dá porque ele tem na cabeça um pré-raciocínio que embaça a inteligência. Um exemplo. Você aponta um dado: tudo que é país onde as pessoas tem conforto material é liberal de um jeito ou de outro, enquanto os mais ferrados (incluindo o nosso) são aqueles cujo Estado tem maior controle sobre a economia. O que você conclui normalmente? Se você tiver um pouquinho de inteligência, vai concluir que a liberdade de mercado está deve estar relacionada à qualidade de vida da população. Então onde houver mais liberalismo, mais o pessoal vai viver bem. Onde o governo mais paparicar o povão, mais o povão vai se ferrar. Mas o brasileiro não acha isso. Acha esquisito, porque, segundo a sua cabeça, o Estado serve para o povo, então se não houver muita presença estatal, o povo estará ferrado. Você torna a mostrar gentilmente, por caridade, que os dados desmentem isso. O brasileiro continua teimando, porque não vê nexo causal entre uma coisa e outra devido à crença na bondade do Estado. Mesmo que você diga que aqui no Brasil não falta exemplo de como neguinho dá golpe com dinheiro público, ele vai insistir naquele pré-raciocínio. Quer dizer, se burrifica.

Se você diz para o brasileiro (lembre-se que estou sempre me referindo ao intelectual médio) que foi a Igreja que deu um pé na bunda dos pedófilos, e que portanto a Igreja está ligada ao combate à pedofilia, e que destruir o Cristianismo é fomentar a pedofilia, o brasileiro não perceberá igualmente nexo causal nenhum, porque ouviu falar de padre pedófilo. Se você disser que há padres pedófilos justamente porque o Cristianismo tem se tornado frouxo no mundo, ele não vai entender direito. Se você disser, também, que a relação entre pedofilia e homossexualismo é direta, e que a Igreja é contra essas duas coisas, e que só pode haver padre pedófilo por causa da destruição do Cristianismo, o brasileiro não conseguirá acompanhar o raciocínio. Ele vai é usar o artifício I e II que eu citei, achando que você é uma defensora imbecil do Cristianismo, uma pessoa cheia de problemas mal resolvidos ou que nada disso é ancorado em fatos, mesmo quando eles saltam aos olhos.

IV - Raciocínio abstrato

O intelectual médio brasileiro não raciocina sobre fatos. Ele raciocina sobre o encantador mundo das idéias que ele construiu. O mais comum é chegar para o esquerdóide e dizer que o comunismo não presta e que o capitalismo é amazing, apontando o simples fato de todos os países socialistas serem umas merdas e todos os capitalistas serem legais. Mas não, não pode ser! Por que não? Porque na cuca do esquerdóide, o comunismo é no fundo excelente e todo mundo tem que se dar bem nele, enquanto o capitalismo é exploração e malvado no fundo, e todo mundo tem é que se foder nele. Aí ele vai negar o dado e passará a defender a abstração, mandando para o rabo do judas o primeiro e se apegando fanaticamente ao segundo. Conseqüências práticas? Onde houver um país capitalista muito bom, ele vai achar sempre que na verdade é um país no mínimo escroto, fazendo cobranças monstruosas a respeito de moralidade, bondade etc. Onde houver um país socialista muito babaca, ele vai achar sempre que na verdade é um país no fundo bom, e vai amenizar todos os defeitos possíveis, tratando-o a pão-de-ló.

Sobre a Igreja, é melhor nem dar exemplos. Melhor dizendo, vou dar um. De novo, a Inquisição. Segundo o esquemão vagabundo, Igreja=ignorância, Ciência= a Verdade, com V mesmo. Então qualquer um que foi condenado pela Inquisição foi condenado por gente ignorante. Pior ainda se o culpado for um cientista. Aí, segundo o esquemão, Galileu foi a vítima da Igreja malvada. Legal, mas Galileu foi "vítima" sabe como, ô burro? Pediram primeiro para ele não dizer o que dizia, já que não tinha como sustentar suas idéias. Como teimou, foi obrigado a desdizer-se. O que ele dizia e que teve de desdizer? Que a Terra girava em torno do Sol, não o contrário. Oh, escândalo! Galileu estava correto? Não, nem hoje nem naquela época. Quando pediram a Galileu que provasse o que estava dizendo, eis o que o sábio respondeu: "Sinto que estou com a verdade." Bom, se eu fosse a professora de Galileu e pedisse para que justificasse uma questão qualquer, e ele me respondesse isso, eu daria zero. Por que os padres não podiam pedir a mesma coisa? "Sinto...", hmpf. Só em fins do séc. XIX, com a famosa experiência do pêndulo de Foucault, é que descobriram realmente que a Terra tinha um movimento diurno. Mas antes que um espertinho diga "a-ha, Galileu wins, Church sucks", há três coisinhas para se entender:

1) Ciência não é chutômetro. Anaximandro dizia que os seres evoluíam, e que a vida começou no mar. Mas cadê as evidências e a teoria explicativa?

2) Em si, a experiência não comprova que é a Terra que gira em torno do Sol.

3) Com Newton, por que usar o Sol como referencial de movimento? Ele não está parado absolutamente. Do ponto de vista do referencial, é tão certo dizer que o Sol gira em torno da Terra como o contrário. Na verdade, pelo fato de estarmos aqui nesse mundinho e não no Sol, é esquisito usarmos justamente o último como referencial.

O problema entre Igreja e Galileu não é o problema entre ciência e religião. A questão era outra. O cientista nunca viu a coisa por esse lado. Ele tentou de um jeito muito afoito destruir a cosmologia que a própria ciência montou e que tinha mais de mil anos. Mas ele não tinha muita evidência. Sujeito vaidoso que só, porque conhecia bem a cuca que tinha, quis teimar quando não tinha meios para defender o que dizia. Acabou entrando em polêmica amarga. É verdade que houve quem usasse argumentos tirados da Bíblia para demonstrar que a Terra não podia estar em movimento. Mas eram cientistas que faziam uso dessa autoridade. Usavam também Aristóteles para defender essa mesma idéia. Além do mais, como eu acabei de dizer, não foi a religião mas a ciência que, segundo os conhecimentos até então, considerava que a Terra estava parada. Era coisa de senso comum.

A minha intenção aqui não é destrinchar o caso Galileu, mas apontar como o brasileiro raciocina. Simbora para outra questão.

V - Projeta seus próprios anseios nas idéias do adversário

Essa idéia aqui é típica da má leitura. O camarada lê um texto e, ao invés de entender o que o autor quis dizer, ele começa a projetar suas próprias idéias no texto para, só a partir daí, começar a interpretá-lo. Parece Narciso. O cara lê o que quer ler e descarta o que não quer. Um amigo meu me contou que durante uma aula, após leitura de um texto do José Bonifácio no qual ele defendia o fim da escravidão, fulana teimou em afirmar o contrário. O professor ficou uma arara, pediu para que ela citasse onde foi que ela leu que José Bonifácio defendia a escravidão. Claro que ela não encontrou nada e ficou muda, cheia de vergonha. Acho que aqui ela usou o artifício da abstração de idéias contra fatos, porque deve ter raciocinado assim: como a elite brasileira era escravocrata e como José Bonifácio era da elite, então ele era escravocrata. Ô demência!, o que me faz partir para outro ponto.

VI - Ao invés de raciocinar, faz associações prosaicas de idéias

Vou citar o Olavo de Carvalho:

Para desgraçar de vez este país, a esquerda triunfante não precisa nem instaurar aqui um regime cubano. Basta-lhe fazer o que já fez: reduzir milhões de jovens brasileiros a uma apatetada boçalidade, a um analfabetismo funcional no qual as palavras que lêem repercutem em seus cérebros como estimulações pavlovianas, despertando reações emocionais à sua simples audição, de modo direto e sem passar pela referência à realidade externa.

Há quatro décadas a tropa de choque acantonada nas escolas programa esses meninos para ler e raciocinar como cães que salivam ou rosnam ante meros signos, pela repercussão imediata dos sons na memória afetiva, sem a menor capacidade ou interesse de saber se correspondem a alguma coisa no mundo.

Um deles ouve, por exemplo, a palavra "virtude". Pouco importa o contexto. Instantaneamente produz-se em sua rede neuronal a cadeia associativa: virtude-moral-catolicismo-conservadorismo-repressão-ditadura-racismo-genocídio. E o bicho já sai gritando: É a direita! Mata! Esfola! "Al paredón!"

De maneira oposta e complementar, se ouve a palavra "social", começa a salivar de gozo, arrastado pelo atrativo mágico das imagens: social-socialismo-justiça-igualdade-liberdade-sexo-e-cocaína-de-graça-oba!

Não estou exagerando em nada. É exatamente assim, por blocos e engramas consolidados, que uma juventude estupidificada lê e pensa. Essa gente nem precisa do socialismo: já vive nele, já se deixou reduzir à escravidão mental mais abjeta, já reage com horror e asco ante a mais leve tentativa de reconduzi-la à razão, repelindo-a como a uma ameaça de estupro. Tal é a obra educacional daqueles que, trinta anos atrás, posavam como a encarnação das luzes ante o obscurantismo cujo monopólio atribuíam ao governo militar.

Nem preciso dizer mais nada.

VII - Fala do que não sabe, mas fala muito mesmo

Quanto menor for o conhecimento, mais o cara gosta de dizer o que não sabe. Essa é uma lei quase universal aqui. Quando esse cara for conversar então com quem sabe, ele vai achar que está lidando com alguém da mesma laia, e tudo aquilo que quem sabe disser será tomado como se de nada soubesse.

A coisa é tão picareta que o ignorantão não se dará ao trabalho de nem pedir fontes de referência das opiniões do outro para só então tecer algum comentário. Ele vai atravessar a conversa fingindo conhecer de cor e salteado o argumento do outro, quando na verdade sabe porra nenhuma.

Outras vezes, talvez por medo de parecer burro, ele vai emitir uma opinião sem ter o menor embasamento no assunto ou vontade pessoal sobre ele. Ele vai ser compelido mais facilmente caso haja um coro. Se todo mundo disser que a economia precisa de superávits primários, ele vai dizer a mesma coisa, mesmo sem saber se a frase faz sentido. O cara blefa na cara de pau, apostando na ignorância alheia. Dependendo como for, vai se empolgar e vai blefar direto, já que todo mundo está fazendo a mesma coisa. Só que todo mundo vai estar um com o cuzinho mais apertado que o outro, porque a mentira é frágil. Se aparecer alguém para desmascarar a todos, vão tomá-lo como o capeta. Em terra de cego, caolho não é rei. Os cegos furam o olho dele.


VIII - Afeta autoridade

Isso tem a ver com o que eu disse nas últimas linhas do último parágrafo. O intelectual médio não raramente finge ser um negócio que não é. É ator. Uns fingem bem e ganham o Oscar. Os que fingem mal ganham o Prêmio Framboesa. Com o intelectual é a mesma coisa. Uns fingem que sabem e viram doutores e autoridades. Os que fingem mal se tornam caricatos. Os que são intelectuais mesmo são vistos com desdém. Esses o povo chama de "polêmicos", só porque dizem o que vêem.

Há um montão de fórmulas para fingir ser intelectual. Uma é falar difícil, mas é velha e manjada. Outra é citar livros que nunca leu nem teve vontade de ler. Outra é ostentar algum cargo ("Sabe com quem está falando? Sou professor de zetética pós-moderna da Univerdade de Cachandó do Judas"). Há bastante outras fórmulas, porque da mesma forma que há técnicas de atuação, há técnicas de fingir-se intelectual.

IX - Maniqueísmo

O intelectual médio brasileiro não gosta de afirmações peremptórias. Ele gosta das nuanças. Em relação ao problema moral, ele detesta questão de certo ou errado. Ele acha que "o mundo é cinzento". Todo burro tem essa frase como chavão.

Mesmo quando você diz que uma coisa realmente é escrota, ele vai pedir para você abrandar o que diz. "Nada pode ser tão mal ou tão bom." Dá vontade de mandá-lo para o quinto dos infernos.

Pior de tudo é que ele gosta de dizer que quem faz afirmações muito nítidas é maniqueísta. Ora xongas, que é o maniqueísmo? É buscar a acomodação entre o Bem e o Mal, de modo que ambos coexistam. O maniqueu acha que é necessário existir ambos juntinhos. O maniqueísta não é quem afirma que tudo é branco ou tudo é preto. É quem diz que tudo é necessariamente cinza. O intelectual médio brasileiro, doido que só, nem sabe, para variar, do que é que está falando.

X - Chavão

É normal que a gente caminhe entre lugares-comuns. O que não é comum é que só nos atenhamos a eles. É o que acontece quando a gente se depara com um brasileiro. Se você conhece um, parece que já conheceu todos. Adora usar chavões. Citei alguns acima. Há outros, como: "Ai, você é tão radical..." "Você tem de respeitar as diferenças..." "Olha, respeito sua opinião, cada um num canto..." "Ai, você está exagerando..." "Não existe verdade..." É foda, cara. Até desanima o papo.

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