Sunday, October 01, 2006

Como Dead Kennedys foi um marco em minha vida

Houve uma época na qual eu amava Dead Kennedys. Hoje em dia fico cheia de dedos. Uma amiga minha disse que a razão disso é que eu fiquei mais besta. Wow, nada disso, dear friend! É que, com o passar do tempo, fiquei maluca de um jeito diferente da minha loucura passada.

Essa banda tem um valor especial para mim. Conhecê-la, me embrenhar nela e depois fugir foi como um tipo de transformação. Bem visível.

Quando a gente fica velhinho, começa a ter vontade de contar história de quando era novo. E agora fiquei com vontade de falar de mim quando era mais nova. Será sintoma de velhice precoce? Pior que as minhas história que parecem ter acontecido há tanto tempo são de cinco ou seis anos atrás. Do meu ponto de vista, é um pedação da minha vida, mas não é nada para o vovô de 89 anos.

***

Netinhos, a vovozinha boazinha vai contar da vez que quase chorou quando viu os Dead Kennedys.

O ano era 2001. A vovó tinha na época uns 19 anos. Ela adorava de paixão o Jello Biafra. Achava que ele era o cara mais super duper do mundo e pensava seriamente em lhe enviar uma carta propondo casamento. Infelizmente ele não estava mais na banda, embora ela ainda existisse. Nunca havia escutado o novo vocalista, perdida que estava naquele passado glorioso dos DK com o Jello (sabe como é, velhinho sempre prefere o passado). O mundo continuava a girar calmamente em torno de si mesmo quando em certo dia a vovozinha recebeu uma notícia: DK em turnê pelo Brasil! DK no Rio de Janeiro! Wow! O único porém era que o Jello não viria. O vocal era outro. Mas ela juntou um dinheirinho, se programou toda e foi lá ver com os amigos. Não era longe de casa. Foi o show no clube do América, fica a uns 20 minutos de ônibus daqui de casa. O horário era meio ruim, começava tarde, mas com a escolta de amigos a mamãe querida achou que não havia problema.

Já do lado de fora deu para perceber que sobrava gente. A maior parte parecia figura de anime. Todo mundo vestido como devia para ver um show do DK: uma camisa da banda (aquela preta com uma figura oval vermelha, com um enorme DK prateado no meio), de uma outra banda qualquer, ou simplesmente de preto básico. Maior confraternização do lado de fora. Gente que nunca viu a vovó mais gorda conversando com ela como se ela fosse a maior confidente. Papo vai, papo vem, a vovozinha começa a perceber que havia uma quantidade considerável de gente bem mais velha (de bisavós para cima). Normal, porque a banda é da década de 80. Normal um monte de gente de mais de 33 anos estar vestida e se comportar como um malucos de 16 anos. Normal depois de terem ouvido até o tímpano estourar I don't wanna grow up dos Ramones.

O show foi num salão enorme. Uma decepçãozinha chegou a brotar no coração da velhinha. Um banda histórica ser relegada a um salão, ainda que imenso? Não sei o que ela esperava quando entrou no clube América. Mas o lugar ficou lotadérrimo e acho que ainda teve gente que mal entrou. Entre a banda e o público havia uma dessas proteçõezinhas para isolar área, tipo uns caveletes de metal, mas não sei como se chamam. O palco meio pequeno. A vovó quis, é lógico, ficar pertinho. Ela e sua cambada ficaram pendurados nos tais cavaletes de metal. Isso foi quando estava ainda enchendo o salão. Outras pessoas também tiveram essa infeliz idéia. Depois de um tempo havia uma porrada de gente se espremendo ali. Como a vovó foi uma das primeiras a chegar, rapidinho ela foi a primeira a ser esmagada, mal tinha começado o show. Pior que não dava para sair dali! Mas como era show dos DK, sacrifícios eram válidos. O que pensaria o noivo Jello Biafra se soubesse que a noiva tinha fugido da banda ao menor sinal de adversidade, mesmo ele estando brigado com toda a banda?

Quando a banda apareceu, foi a maior gritaria. Ninguém estava nem aí para o novo tão mal-falado vocalista Brandon Cruz, nem para o fato de a banda ter sido obrigada a usar provisoriamente o nome "DK Kennedys" (acho que por causa dos processos que o Jello moveu contra o resto do pessoal), nem para o fato de todo mundo ali ser já quarentão e usar bermudão e all-star cano longo. Dane-se! Era quase a formação original bem ali na frente de todo mundo.

O público ficou doido quando tocaram Kill the poor. A coisa ficou feia mesmo durante o Nazi punks fuck off. No meio do salão abriram um tremendo pogo (tradução: roda onde o pessoal fica se jogando um no outro) e todo mundo ficou completamente alucinado. A vovó, como não podia deixar de ser, porque quem gosta dessas coisas acha que tem que experimentar alguma vez o pogo, se meteu ali sem nem pensar. Quem ali estava deixava a vovozinha passear sem problema. Ela não recebeu trombada nenhuma. Mas percebeu que um monte daqueles caras de mais de 32 anos ficava dando pernada em quem era bobo o suficiente de passar perto deles. Toda hora alguém caía e eles riam que só. Houve um pouco mais de calmaria em Moon over marine. E quase todo mundo ficou emocionado quando os DK tocaram o hino California über Alles.

Naquele momento, parecia que os velhinhos estavam cansando, ou pelo menos o uncle Cruz. O ritmo diminuiu um pouco. Mesmo assim, o pessoal estava doido. A vovó também, embora fosse espremida até não agüentar. Mas aí aconteceu um negócio que teve repercussões no mínimo curiosas. É que, por causa da pressão do público, quem estava sendo esmagado pelos cavaletes de metal acabava tirando-os do lugar aos poucos. Se havia alguma distância entre público e palco, ela não exisita mais depois de um tempo. Então, aos poucos, no melhor estilo rock'n roll, algumas figuras começaram a subir no palco e dali se jogar. Uma garota bem maluca (não vovó, porque isso é coisa da juventude) tentou até subir na caixa de som e de lá se jogar, mas os seguranças não deixaram. Eles logo começaram a não deixar ninguém subir. Estavam tendo bastante trabalho. O detalhe é que eles agiam de cima do palco. Como um monte de gente não parava de tentar subir, a quantidade de seguranças no palco também foi aumentando, chegando ao ponto de criarem um paredão de homens de terno na frente da própria banda. O espírito de liberdade de todo mundo deve ter berrado lá no fundo da alma algo como "c'est incroyable", "c'est trop stupide"! Todo mundo começou a protestar. Até porque os seguranças ficavam empurrando qualquer um que chegasse perto. No meio da chiadeira, o uncle Cruz começou a também reclamar dos seguranças. A vovó, por causa de sua senilidade, não lembra direito o que ele disse, mas eram alguns comentários sarcásticos e coisas do tipo "Parem de encher o saco". Também pedia para que saíssem da frente. A turba entrou em frenesi. Havia então o público berrando e protestando, os DK sacaneando, e entre ambos um paredão de seguranças acuado. Naquele momento, voou uma garrafa de água mineral bem no cocoruto de um dos homens de terno. O público vibrou. Outra figura da multidão tascou uma cusparada bem na cara de outro segurança. Ele ficou fora de si! Arregalou tanto os olhos e sondava com tanta raiva o público que mais parecia estar sob efeito de entorpecentes. A situação ficou tão descontrolada que eles afinal desistiram de impedir o pessoal de subir no palco e só ficaram num canto observando. Virou uma tremenda farra o show.

No final, a vovozinha estava cansanda. Voz e audição sumiam, a roupa estava encharcada de suor, adrenalina a mil. Os amigos também estavam mais ou menos nas mesmas condições. Ela só os encontrou no final do show, porque durante eles se espalharam em meio a toda a agitação. Um deles confessou depois que foi o autor da cusparada. Um dos amigos feitos na hora morava tão longe que teve que dormir na rua, porque não passava mais naquela hora o ônibus dele. Como tinha ido sozinho, não tinha companhia para voltar. Mendigou na rua, até o sol raiar.

A vovozinha cansada e seus amigos foram todos embora, felizes e sorridentes. Alguns até dormiram na casa dela, porque moravam longe e já estava tarde. No dia seguinte, ela era toda alegria ao contar para outros amigos sobre o show. O ingresso virou relíquia.

***

A partir daquela ocasião, a empolgação pelos DK foi desaparecendo aos poucos. Tudo o que tinha de dar deu naquele show. Me livrei de tudo deles. A relíquia foi parar no aterro sanitário. As letras começaram a parecer uma coisa super idiota. A parte instrumental um nojo. Os comentário do outrora amado Jello Biafra uma estupidez sem tamanho. A atitude de processar os outros membros da banda, ao mesmo tempo que enchia o saco falando de liberdade, quebra de regras e tal, primeiro pareceu uma contradição babaca, depois uma babaquice de caráter. O que esperar desse tipo de gente? Quem adora posar de revolucionário sempre faz cretinices desse tipo. Nada mais natural. A lembrança daqueles marmanjos acima de 32 anos, se comportando daquele jeito, passou a servir de alerta. Deus me livre ficar velhinha e me vestir que nem a Siouxsie! O comportamento do público contra os seguranças, se na hora pareceu legal, hoje acho ridículo.

Mas ainda hoje acho tudo muito engraçado. Foi uma experiência curiosa. No meu caso, serviu como espécie de divisor de águas entre a Tanja em vias de se tornar uma doida completa e a Tanja de hoje. Não que eu fosse uma tremenda maconheira e coisas do tipo (embora sempre alguém achasse que eu gostava dessas coisas). Eu até sempre fui bem calminha. Mas aqui dentro tinha alguma coisa de diferente, sei lá. Eu sentia uma vontade de ter cada vez mais liberdade, o que equivalia, para mim, a tomar atitudes que pareciam meio agressivas a outras pessoas. A idéia de desordem parecia legal. Nunca a levei a ferro e fogo, mas dei umas boas namoradelas. Com o passar do tempo, acabei ficando doida de outra maneira. Hoje me acham parecida com personagem de desenho animado. Não é mais alguma coisa cujo fundo é agressivo. Aquele papo de anarquia e rebeldia contra a sociedade burra e opressora mudou.

Por isso que sempre que lembro de DK, me vem à cuca a palavra "transformação". Acho que tê-los largado foi uma superação. Várias coisas mudavam em mim, e a mudança mais visível foi quando "reneguei" aquela banda. Acho que fiquei mais boazinha no final das contas. :)

1 comment:

Anonymous said...

Nota-se que a tanja então aceitou a repressão e tornou-se uma conservadora reprimida. Leia-se: os pais venceram.