Thursday, September 21, 2006

Improperia

Marcel Pérès é o cara. Com o Ensemble Organum ele trouxe para nossos ouvidos maravilhas antigas. Uma delas estou escutando agora: Improperia.

Que são as Improperia? A palavra significa "reprovações". São as lamentações do Salvador contra os judeus. Na verdade, por judeus devemos entender o povo de Cristo. Nelas, o Salvador argumenta de um jeito retórico interessante. Ele sempre começa relembrando quem foi que ajudou os judeus em várias épocas e, em seguida, diz de que maneira cruel eles lhe retribuíram na Paixão. Abrindo as improperia e depois separando-as umas das outras ao longo do que é recitado, há o Triságion. A palavra significa "três vezes santo". São João Damasceno conta que em certa ocasião os habitantes de Constantinopla viram anjos cantando no céu. Eles diziam: Ágios o Theos, Ágios iskírios, Ágios athánathos kírie eléison ímas (Santo Deus, Santo forte, Santo imortal tenha piedade de nós). Quando o Triságion é cantado, ele é alternado também em latim (Sanctus Deus, Sanctus fortis, Sanctus et imortalis miserere nobis).

As Improperia fazem parte do ofício da Sexta-Feira Santa há bastante tempo. Há mesmo menções antes do século IX. A versão mais conhecida é do Palestrina, cantada até hoje no Vaticano durante a Adoração da Cruz. Mas a que estou ouvindo agora é do tempo do ronca. Segundo Pérès, vem de um manuscrito do século VII e, ao que tudo consta, era cantada pela igreja de Roma. Lembro do apresentador do programa Collegium Musicum (Rádio MEC, toda segunda, das 22h às 23h) ter um dia comentado que provavelmente até Carlos Magno conhecia essa versão.

Ela é muito bonita, embora triste. Mas é uma tristeza nobre, sem sentimentalismos. É toda a capela. Talvez por ser tão antiga (o canto gregoriano mal existia), o canto é um pouco diferente do que estamos acostumados, embora não seja nada anormal. É toda recitada, com aquela calma e profundidade que estamos acostumados a ouvir no cantochão. É recitada sempre a uma só voz. Quando o Triságion é recitado em latim, o coro canta junto, como se os fiéis repetissem o que é dito pelo Céu. Com a execução perfeita do Ensemble Organum, a música fica mais perfeita ainda. Outra coisa interessante destas Improperia é que nos dão uma idéia de como eram algumas músicas da igreja antiga, incluindo aí as do Oriente (embora o Ensemble Organum costume fazer interpretações meio orientalizantes).

O que mais me chamou a atenção, dentre um monte de outras coisas, é como uma coisa tão antiga pode ser tão emocionante. A música foi feita com muita sensiblidade, obra de mestre! Tanto que eu, carioca, consegui ficar impressionada com a beleza de uma música feita lá no século VII. É por isso que eu adoro a idéia da eternidade do espírito. Se o espírito não fosse eterno, eu não entenderia lhufas do passado. Olha aí que exemplo legal a comprovar isso.

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