Wednesday, September 13, 2006

Heinrich von Kleist e a justiça imperfeita do mundo

Sou suspeita para falar do Heinrich von Kleist. Eu amo esse escritor. Estou devendo muitas coisas ainda, como O Anfitrião e aquela história do comandante corajoso que na hora da pena de morte começa a dar sinais de covardia. Coloca na minha conta aí, garçom.

Kleist tem um senso de justiça muito curioso. Ele leva até as últimas conseqüências aquele ditado "Deus escreve certo por linhas tortas". Mas há uma diferença. Não é Deus que dá um jeitinho no que está errado. É a misteriosa ordem do mundo.

O mundo é imperfeito, mas é uma imperfeição um tanto relativa. Realmente há um monte de coisas erradas que ocorrem no mundo de Kleist, mas todos esses erros são consertados por uma estranha seqüência de acontecimentos. De repente pode mesmo haver uma aparição espantosa no meio da história, mas isso não é muito freqüente. O que há é uma espécie de sentido cósmico de justiça que necessita ser cumprida, mesmo que às custas de vidas singulares. Também nem sempre é completamente proporcional a falta cometida e o desenrolar dos acontecimentos que levam por fim ao suplício de quem a cometeu.

Esse sentimento de justiça chega a ser tirânico. Acho que tem algum eco pagão. O culpado deve expiar, ainda que ele possa ser uma vítima um tanto quanto involuntária. Mas o mundo parece ser uma força que esmaga a pessoa. Ele é justiceiro. Parece ter uma vontade, embora a gente não consiga compreendê-la direito. Não é uma justiça perfeita. Várias vezes Kleist usa inclusive a expressão seguinte, que é muito sugestiva: "mundo de justiça imperfeita".

Assim, as histórias de Kleist têm geralmente uma atmosfera um pouco pesada. Às vezes tenho a sensação de que realmente Kleist levava muito a sério essa coisa toda. O mundo parece mesmo ser algo estranho no fundo. Aparenta ser normal sobre um fundo incompreensível e assustador. Neste ponto, acho que Hoffmann consegue ser mais, hum, "virtuose". No mundo dele, é muito mais clara essa duplicidade da realidade. Mas Kleist parece ir um pouco mais além, indo esbarrar não tanto no mundo sobrenatural, mas na esquisitice fundamental e incompreensível deste nosso mundo mesmo. O mundo parece ser trágico, e a tragédia uma espécie de necessidade de justiça.

Qual história é mais recomendável? Das que li, eu indicaria Michael Kohlhaas, a história de um homem que se revolta contra as arbitrariedades de um senhor de terras e que é baseada nas revoltas camponesas da Alemanha no século XVI. É, na minha humilde opinião, a história que melhor expõe o sentido de justiça de Kleist. Michael Kohlhaas é ao mesmo tempo rebelde e justiceiro, justamente por causa de seu imenso senso de justiça, que o leva a fazer o que parece justo mas pagar também pelo que fez de injusto. Ele parece uma espécie encarnação da "vontade do mundo" em sua sede de justiça a todo custo, sucumbindo no fim a essa grande e misteriosa ordem imperfeita do mundo.

Heinrich von Kleist é um autor bem legal. Sei lá se é ou não um grande clássico, mas é um cara que eu gosto muito.

2 comments:

Anonymous said...

Oi moça, muito legal o seu blog, eu deixei uma mensagem, não sei o que aconteceu. Eu disse que estou lendo Penthesilea do Kleist, assim que terminar envio anotações, se for do seu interesse, é claro.

Leonardo, Pirituba

Tanja Krämer said...

Oi, Leonardo! Que bom que gostou do blog, valeu. :-) A sua primeira mensagem apareceu no post "Balé e Dufay" (http://aespectadora.blogspot.com/2008/07/bal-e-dufay.html). Respondi por lá. Mas como tem a ver com esse post, respondo também aqui. =)

Manda sim suas anotações! Agora, você sabia que já filmaram alguns contos do Kleist? Outro dia eu vi "A marquesa d'O". O "Michael Kohlhaas" filmaram na década de 60. Existe também uma adaptação do M. Kohlhaas que se passa no Velho Oeste. De repente você vai gostar de assisti-los. Gostei mais dos contos, se bem que não vi o filme do M. Kohlhaas.

Abraços!