Tuesday, September 12, 2006

Ateu é bobo porque se acha sabichão

O mal do ateu é que ele se acha esperto demais, tão esperto que nem percebe que é tonto.

Meu guru Ortega dizia que o que separa o burro do inteligente é que o último sempre se vê a dois passos da estupidez. O burro não. Ele respousa tranqüilamente em sua burrice, o que lhe dá um ar sereno que chega a ser invejável. Ele avança tranqüilo em sua estupidez. Não descansa nunca. Não tem um pingo de vergonha em sua estupidez.

O ateu é assim também. Quando ele diz todo bobo que não crê em milagre porque isso não é ciência, é fé, e fé é coisa de gente ignorante, ele não percebe que está sendo o mais fideísta possível. Ele não percebe que prende sua fé em algo mais fantasioso que aquele diabo gay das Meninas Superpoderosas. Ele acha que a ciência chegou para desbancar a fé. Como parece que ela desmente a possibilidade de milagres, então ele fica com ela, raciocinando assim: ciência = razão > fé = religião. Ciência é liberdade, religião é dogma. Só que o bonitão nem pensa que é ele o ultradogmático da história. Ele só não crê em milagre porque acha que é anticientífico. Se alguém lhe diz assim: "Olha, eu mesmo já presenciei um milagre", o ateu diz: "Não, porque a ciência diz que não pode." E se um monte de gente ao longo de mil anos vive dizendo que viu acontecer milagres, tanto o mais humilde quanto o mais sabido, o ateu ainda nega. Por quê? Porque isso vai contra sua idéia de ciência. Se os fatos são contrários a sua idéia de ciência, ele acha que são os fatos que estão errados.

Nem tudo pode ser comprovado cientificamente. Vou usar um exemplo do Chesterton. Chamo meu namorado de meu queridinho. Mas o fato de eu me recusar a chamar meu namorado de queridinho na frente de cientistas, ou de eu nem sempre chamá-lo de meu queridinho quando estou com ele, nada disso pode ser uma prova científica de que eu na verdade não o trato assim. Nem se a ciência fosse questão de probabilidade, e se fosse seria mais fácil aceitar o milagre, valeria contra o fato de eu chamar meu namorado de meu queridinho. Tampouco podem provar cientificamente porque eu escolhi este sujeito aqui para ser meu queridinho, e não aquele outro. Também não serve usar Darwin aqui para explicar em termos de perpetuação da espécie, porque nada explica a razão deste aqui em específico ter tocado a minha alma, e não aquele outro. A física é very cool, mas não serve nem para explicar a razão de eu chamar alguém de chuchuzinho ou de gostar de Santo Agostinho e Rancid, embora agora eu ouça a Sinfonia Júpiter e esteja escrevendo sobre como o ateu é tonto.

Quando os ateus tinham o costume de usar perucas (como aliás todo mundo naquela época) e achavam muito in comparar a razão com a luz e a religião com trevas, diziam que Deus não era necessário porque o mundo era todinho bem formado, lógico, que nem um relógio. Leibniz, um tempinho antes, dizia que se o mundo fosse mesmo um relógio e se isso fosse a razão da perfeição, quem o fez não era muito razoável, porque o relógio precisa de tempos em tempos ser reajustado. Mas como quase ninguém deu bola para ele, a crítica passou. Agora, quando os ateus não mais usam perucas, dizem que Deus não é necessário porque o mundo é todinho um caos, e por sinal até surgiu de um caos. Então antes diziam que o mundo era bom demais para precisar de um Deus. Hoje dizem que ele é muito bagunçado para ter sido criado por um Deus. E depois ainda se acham muito espertos.

Todo ateu virou ateu quando era jovem, por volta de uns 15 anos mais ou menos. A partir daí estagnou. Cresceu e ficou polindo sua idéia adolescente. Apresenta sempre como algo adulto um preconceito infantil. Eu quase estagnei também. Por volta de uns 13 anos eu não acreditava em Deus. Dos 13 aos 18 continuei atéia, quer dizer, boba. Resolvi tentar entender como gente séria podia acreditar numa asneira dessas como a religião. Fui lendo um monte de coisas, fui observando outras tantas na minha vida. Acabei percebendo que eu era a maior idiota, e só não fui mais porque notei a minha besteira. Posso ser ainda tonta, mas não tanto quanto antes. Mas de nada essa minha história vai convencer um ateu que finge que ama a ciência mas na verdade é chegado a um dogma. Todo ateu é chegado, i know.

Se o ateu não fosse tão cheio de marra e tão bobo, se ele não amasse um dogma bem-dotado, ele acabaria aceitando como fato consumado a existência de Deus. Se Deus é que nem Apolo, Baal, Aura-Mazda, Osíris, Vishnu ou Nosso Senhor Jesus Cristo, aí são outros quinhentos. Se ele não se prendesse em preconceitos tão bobos, ele poderia entender melhor como é que desde o mais humilde lavrador ao mais ilustres filósofo e rei há gente que crê em Deus. De repente, até teria vontade de virar padre.

1 comment:

Luiz Roberto said...

As pessoas não são apenas ateus porque não existem milagres, ou porque elas não presenciaram milagres. Milagres realmente são improváveis e, mesmo que existissem, não provariam necessariamente a existência de Deus. Também não acho que os ateus sejam sempre marrentos, pode ser que existam alguns. Agora, eu gostaria que você me apontasse uns dez ilustres filósofos do último século que acreditem em Deus, se você arrumar dez que considere ilustre eu te garanto que encontro cem bem mais ilustres que não acreditam. Abraços.