Saturday, March 03, 2012

Burocrata fanfarrão

Você sabe direitinho o que é um burocrata fanfarrão? Vou dar um exemplo do tipo de coisa que se ocupa um ambicioso:


04/03/2012 - Eles entram na lista ao lado das baianas do acarajé, bate-bolas, bares tradicionais e da Festa de Iemanjá como símbolo da cidade


8h – O prefeito Eduardo Paes se encontra com grupo de vendedores de mate, limonada e biscoito de polvilho, neste domingo (04/03) na Praia do Leme, e assina decreto que os declara Patrimônio Cultural Carioca. A partir da publicação do texto, na segunda feira, os ambulantes que já se tornaram personagens das praias cariocas serão considerados bem imaterial da cidade.


Local: Praia do Leme (em frente à Praça Júlio de Noronha).

Entendeu? Um burocrata fanfarrão é um Rei Momo que se leva a sério. Por isso que alguém de espírito carnavalesco como Eduardo "Momo" Paes deve ficar que nem pinto no lixo no gabinete da Prefeitura.

Tuesday, February 21, 2012

Para o carnaval

Dizem que o nosso carnaval é exótico. Acho que existe coisa mais exótica ainda, e de melhor qualidade. Que tal música barroca?

I - Lumi, potete piangere, de Giovanni Legrenzi.



II - Piangete, afflitti lumi, de Orazio Michi dell'Arpa.



III - Io t'abbraccio, de Händel.



IV - Zefiro torna, de Monteverdi.



V - Ciaccona di Paradiso e dell'Inferno, autor anônimo. Muito boa para essa época de carnaval.



VI - Mas é carnaval! No espírito da época, nada melhor que essa parte de O burguês fidalgo! A música é de Lully.

Bocejo

Estou com raiva de mim mesma. Quero dizer, do dáimon. Ele tem me perturbado: "Escreve sobre o carnaval! Escreve, escreve, escreve!" Não consigo nem dormir.

O que você quer saber, dáimon? Vou ser sincera. Não consigo entender essa festa. Pelo menos aqui no Rio. A única diferença do carnaval para o resto do ano é o aglomerado de pessoas. As pessoas se comportam o ano inteiro mais ou menos desse jeito.

Ok, vamos enfatizar o "mais". Veja o que ocorreu semana passada no meu trabalho. Fizeram uma eleição da melhor fantasia. (A minha era de mera funcionária.) Uma das garotas resolveu se fantasiar de periguete. Ao menos foi o que entendi da roupa. Ela estava com um vestido vermelho bem justo, do tipo que se peidar rasga tudo. E tinha uma área equivalente a um lencinho. A garota calçava um par de luvas longas, vermelhas. Estava de salto alto. A novata do RH tentou se assanhar também. Foi com um shortinho preto e saltinho. Na hora lembrei de quando fui a uma festa a fantasia como odalisca. Perto delas, eu teria parecido a Viúva Perpétua. Mas conta ao meu favor eu não ter me vestido assim em ambiente de trabalho. Calhou que quem venceu foi um cara vestido de mulher. Gostei de ver as duas sendo derrotadas. Nem foi só por despeito. Refletindo na hora, pensei na palhaçada de tudo aquilo. Não me refiro à palhaçada da fantasia. Digo do problema de se esparramar vaidade. Quando alguém se veste com um lencinho, quer passar a sensação de ser uma maravilha. "Olhem para mim, vejam com sou especial!" Deixar os carinhas embasbacados é uma forma de provocar admiração. Você se torna o centro das atenções. É a mais desejada. Influenciar tanto a todos faz com que você se sinta mais viva. No caso da (fantasiada de) periguete, o negócio foi tão brabo que até uma magrinha sapatona ficou toda ouriçada. Para mim, nada daquilo tinha graça, e não só porque não sou sapatona. Tanta vaidade me aborrece. Daí que por mais que eu considere normal a reação imbecilizada dos caras (e até da magrinha sapatona), no fundo não sei como ninguém boceja diante de coisas assim.

Sono é o que sucede à bronca quando penso no carnaval. Ele me enche o saco por todas as mais óbvias razões. (Nessa época, acho mais fácil amar a Deus com todas as minhas forças e com todo o meu entendimento do que amar ao próximo mijão bêbado desbocado como a mim mesma.) Agora, o exercício abnegado de vaidade atinge um nível tal que me dá sono. No passado, todo mundo sabia que era a festa do burro. Era a época invertida. As pessoas sabiam que durante um período o ridículo tomava conta. Terminando o período, tudo voltava ao normal. Hoje não é mais assim. As pessoas levam a sério a farsa. Algumas até choram orgulhosas após sambarem por mais de uma hora. A vontade de chorar pode ser é sincera, mas não o choro. É uma baita forçação! No fundo, qualquer um (ou pelo menos a maior parte das pessoas) sabe que se exibir com um tapa-sexo por cerca de uma hora não é lá motivo de orgulho, muito menos de profunda realização pessoal. Por mais que a gente viva numa era carnavalesca (a reviravolta dos valores nada mais é que um carnaval sem fim), existe ainda algum rastro de senso da medida. Existe ainda uma diferença entre sinceridade e afetação. Uma coisa é a manifestação de alegria, outra é querer aparecer. Às vezes manifestar alegria pode parecer ridículo, mas querer aparecer sempre o é. Mas querer ser admirado no instante em que se é ridículo é a apoteose da babaquice, e não por acaso o final do Sambódromo é chamado de Praça da Apoteose. Considerando as coisas assim, pelo menos em mim cessa a bronca e advém o bocejo. É babaquice demais.

Wednesday, January 04, 2012

Militância escatológica

Estava pra lá e pra cá na Internet, quando tive a sorte de cair num site militante. Nem me refiro a partido. Digo um desses sites que servem para extrair a nossa banha das "trevas do conhecimento" (olha o linguajar teológico que não me engana). Um site de alerta. Um site de gente supimpa.

Havia uma denúncia. Era contra dirigir bêbado. Como alertavam? Com fotos. De gente. Trucidada. Entenda bem o que nem mesmo eu entendi. Fotos de pessoas que mais pareciam do avesso, com avisos como VEJA O QUE ACONTECE QUANDO SE DIRIGE EMBRIAGADO! Não, não entendi a proposta. Isso não causa revolta, mas nojo. É como se alguém esfregasse um bife sangrento na minha cara, gritando: "TOMA ESSE PEDAÇO SANGRENTO DE REALIDADE NA CARA, SUA PIMPONA ALIENADA!"

O engraçado é que gente assim assume uma postura do tipo lutei-na-frente-oriental-enquanto-você-caçava-framboesas. É um fingimento que só.

Sempre que vejo coisas desse tipo (como nos pacotes de maços de cigarro com fotos de cadáveres no necrotério), a impressão que me dá é que algum histérico babão quer escandalizar aos berros a vovó que (por supuesto) vive em meu coração. Querem me (nos) chocar. Para usar um termo dos povos da minha cidade, querem deixar a galera bolada. Veja, não entendo qual a outra razão de se colocar foto de gente do avesso nessas campanhas. Se você botar a foto de um cara com a cabeça estourada e a legenda OLHA O QUE ACONTECE QUANDO SE TROCA TIROS COM A POLÍCIA, isso vai servir mesmo para diminuir a criminalidade?

Essa histeria é meio escatológica e meio estética. Fico com a impressão que querem fazer denúncias provocando o nojo e a sensação de feiúra.

A Internet é uma desgraça. Mas bem feito para mim. Tive ócio e fui punida.

Sunday, January 01, 2012

Ano Novo

Vamos começar o ano com música. E uma que vem bem a calhar. É a cantata de Ano Novo Jesus seja louvado (BWV 41), sob a regência do maestro Nikolaus Harnoncourt. Você pode acompanhar a tradução aqui.






Wednesday, December 28, 2011

Feliz Natal

Disse um amigo: "Escreve uma mensagem de Natal". Acontece que a inspiração não me ajudava. Fora que sempre é possível encontrar por aí alguma coisa muito boa. Cheguei a pensar em indicar o site do Pe. Paulo Ricardo. Ou a homilia do Papa na Missa do Galo. Acabei não fazendo nada. Nem conseguia pensar em nada. Mas de repente me veio a seguinte notícia:

Ataques no domingo de Natal na Nigéria deixam mais de 30 mortos


Horrível. Cruel. Monstruoso. Que dizer de uma coisa dessas? Logo no Natal! Mas aí me veio à cabeça uma coisa que um padre me disse uma vez: "Apenas o fato de você ir à igreja aos domingos já é um testemunho de fé". Quantas vezes a gente não se pergunta como tem gente que só vai por ir à missa? Quantas vezes a gente não vai só por ir? Ai, dúvidas... Só que ao se dar conta de que apenas o fato de ir à missa provoca muito ódio, você percebe que essas questões deixam de fazer sentido. Só o fato de você estar na igreja é motivo de quererem matar você. Não interessa se fulano vai assistir à missa de corpo presente ou não. Estar na igreja é então algo maior do que parece.

Aquelas pessoas são mártires. Derramaram o sangue com consciência? Não sei. Talvez elas soubessem que aquilo poderia acontecer qualquer dia. Talvez elas não tivessem a menor idéia. Você e eu podemos levantar muitas duvidas. Agora, o fato é que alguém não teve nenhuma sobre a necessidade de elas morrerem. Apenas a fé que as levou a ir à missa foi suficiente para que fossem mortas. E se você morre por causa da sua fé, acho que você é mártir. Sabendo disso ou não. Veja o caso de Herodes e os jovens mártires. Ao saber que o nascimento do Salvador estava próximo, ele mandou matar muitas, muitas crianças. Elas também não sabiam que morriam por causa de Cristo! Morreram. E agora são mártires. Tanto elas como os mais de 30 mortos no ataque na Nigéria, amém.

Pedagogia estranha, muito estranha. Você pode não dar o menor valor a nada disso. Nenhum mesmo. Acontece que alguém com muito ódio fez questão de lembrar como isso tem valor sim, senhor. Tanto que cobraram um preço elevado, o de sangue. Aquele mesmo que Jesus Cristo ofereceu de si mesmo para todos nós.

Qual a razão desse ódio tão grande? Só pode ser uma resposta (inútil) a algo muito grande. Há mais de 2000 anos, Deus habitou entre nós. Entenda bem isso. Tudo, tudo de mais maligno nesse mundo tem sido feito para destruir aquele acontecimento. Não se engane. Há mentiras, perseguições, matanças. Acontece que não há horror que não seja pequeno diante do Mistério da Encarnação. Explodam igrejas, metralhem fiéis, zombem do que cremos, fraquejemos todos diante de Deus... Nada disso importa. Nada. Porque há mais de 2000 anos, o fato é que Nosso Deus habitou entre nós! E isso, bem, isso ninguém pode mudar. Ocorra o que ocorrer

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Deus podia ter respondido à violência do mundo com outra violência. Só que isso não teria mais fim, nem para o próprio Deus. Como resolver o problema? A única forma de terminar com a violência foi através da mais pura inocência. Veio então ao mundo o Menino-Deus, encarnado no ventre da Virgem, pelo poder do Espírito Santo. Abraçar essa criança é sinônimo de salvação.

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Desejo a todos um feliz Natal!





Saturday, December 24, 2011

Cantarei amores

Eu vou cantar o que é o amor.

É você querer rir de uma piada que o amado faz, só que na hora em que você está bebendo coca-cola. Um fato que à lembrança luto e horror me esquivam.

É você marcar de encontrar o amado num lugar que em condições normais de temperatura e pressão você jamais iria, mas tudo é tão lindo durante o amor, né? Você diz que vai só para fazer um agrado, vai, e se perde. Aí quando se lembra que existe um trocinho chamado celular, descobre que ele créééééu. E quando você se acha (depois de horas), vê que o amado já foi, mas restaram os que descobriram há pouco que têm um bilu-bilu, loucos para um test-drive. 

É você mandar um e-mail cheio de manhas e descobrir que sem querer mandou para um homônimo babão do seu trabalho. (Oh, desce cá uma lágrima dos olhos...)

É você usar um perfume para ver se chama a atenção dele, mas aí escuta do cara: "Nossa, você está sentido esse cheiro? Parece até o da minha avó".

É achar um cara interessante demais, até o dia em que ele diz seguir um avatar cósmico que vai nos salvar do Kali-Yuga ou que já saiu com travesti (isso quando não diz as duas coisas juntas)

 
Ah, mas é bom amar.

Friday, December 23, 2011

Segunda realidade

Estou lá vendo o Conta Corrente quando um zé ruela do cinema diz: "Nunca foi tão bom morar no Rio." Isso depois de ele ter dito, com a sem-vergonhice típica que o Olavo definiu como "inocência perversa", que os produtores de cinema estavam ganhando bastantes patrocínios dos governantes. Rio de Janeiro, onde bueiros explodem, pessoas são incineradas, há intervenções militares para conter grupos paramilitares etc etc etc. Mas também no Conta Corrente, outro dia, um economista afirmou que o Brasil era um dos países mais seguros e atrativos para se investir, "afinal estamos bem protegidos da crise mundial". O camarada disse isso logo após uma nota informando que nosso país cresceu menos que a zona do euro! Que audácia!

Outro dia, sou informada que o Congresso permitiu que a WWF fosse consultada sobre o projeto do Código Florestal. Na hora, pensei: "Ué? Quer dizer que chegamos ao ponto de consultar ONG estrangeira desse jeito tão descarado para criar leis?" Alguém poderia usar uma desculpam chinfrim: "Ah, mas é WWF BRASILLL." Então tá. Mas isso é que nem partido comunista... O mais básico é que ninguém comentou patati-patatá nenhum sobre isso.

Saiu o número de homicídios no Brasil, que se não me engano chegava a 49 mil por ano. Não sei se você sabe, mas a Alemanha Nazista sofreu quase 50 mil baixas na campanha polonesa em 39. É a mesma quantidade de baixas que os EUA sofreram em toda a Guerra do Vietnã. No Paraguai, o Brasil parece ter sofrido entre 80 mil e 100 mil baixas. Era mais seguro caçar Solano Lopez nos charcos paraguaios ou se enfiar nos arrozais do Vietnã que morar hoje no Brasil. E as pessoas estão mais preocupadas com a mulher que sentou o cacete num cãozinho! Claro que bater sem dó num bichinho é crueldade. Mas que dizer de pessoas que ficam putas ao verem um bicho sendo morto mas só dizem "é, pois é, que chatinho" diante do assassinato anual de 50 mil pessoas?

Nos últimos tempos, Protógenes Queiróz, cujo nome mais parece mistura de personagem de diálogo platônico com outro de romance português, cismou de querer abrir uma "CPI da privataria tucana" (inspirado pelo livro A privataria tucana). Diante de milhares de acusações de corrupção do governo dessa presidente esquisita, qual a razão de os caras resolverem investigar indícios de irregularidades de um troço que houve num governo de 13 anos atrás? Com licença, mas é como um sujeito tentando agarrar o seu filhinho e você buscando um guarda para prender fulaninho que faz xixi diante do grande teatro do mundo. Vamos lembrar que o Seu Delegado é do PCdoB, cuja moralidade pode ser averiguada pela filhadaputice desenxabida ao chorar a morte do bizarro e maligno Kim Jong-Il. Gêmeas sexagenárias prostitutas da Holanda são muito mais honradas que esse saco de cocozão que é o PCdoB!

Falta de medida da economia e de onde mora, interferência estrangeira em leis domésticas, matanças horripilantes, desvio cretino do foco do noticiário. Alguns exemplos de que tipo de lugar a gente vive.