Saturday, February 06, 2010

Calorrr

Não há como manter o humorrr (snif):

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os termômetros chegaram a marcar 40,9 graus na Praça Mauá, Zona Portuária do Rio. A temperatura recorde foi agravada pela sensação térmica — a sentida na pele — na cidade, que atingiu os 50 graus.

O mais chato é ouvir direto que a culpa é do aquecimento global. A ação humana está alterando o cosmo? Piuí! Chuta que é macumba.

O jeito é aproveitar a praia. Cedo. Talvez usar roupas mulambenta à la carioca. (Sou anti-Cardeal Siri e só uso calça comprida, morô?)

Possível leitura na praia, tomando picolé de limão/Dragão Chinês: Jacques Paul, L'Église et la culture en Occident (tomo I). Bibliografia: 50 páginas. Em estudos envolvendo a Igreja, o pessoal da P.U.F. não brinca em serviço. Chique no último.

Thursday, February 04, 2010

Estado-babá

Estado-babá quer dar papinha aos cidadãos-bebês: "Câmara aprova inclusão de direito à alimentação na Constituição".

Conta direito a beber? Tomara que o Estado-babá não seja muquirana. Pelo menos um suco de caju, please.

Contagem regressiva para o direito a respirar ar fresco, temperatura a 22ºC, roupas bonitas etc.

Wednesday, February 03, 2010

Tempos paralelos (II)

Disse Campos Sales, na Mensagem apresentada ao Congresso Nacional em 1901.


A polícia do Districto Federal, como vos disse em minha ultima Mensagem, não está sufficientemente apparelhada para desempenhar-se com exito da missão que lhe está confiada. Todas as dependencias da repartição central reclamam largas modificações em sua estructura, e meios de acção iimprescindiveis para a prestação dos serviços que lhes estão affectos.

Quer dizer, desde o início do século passado já reclamavam da falta de estrutura da polícia. Agora, acho que isso nem é tão surpreendente. Qual governo acha que está satisfeito com o próprio aparato policial?* É como perguntar se uma criança já está satisfeita de brincar.

Esse outro trecho é mais impressionante:

O espetáculo da vadiagem ostensiva e impune de menores nos pontos mais frequentados da cidade, alliado ao que offerecem os falsos mendigos, continuará a depôr contra a nossa civilisação, se energicas e promptas medidas de repressão não forem adoptadas pelos poderes publicos.

O regimen commum da presão não é para taes casos o mais proveitoso, nem o que se aconselhar a sabedoria dos que se têm dedicado ao estudos dos systemas penaes ou está em uso nos paízes adiantados, onde ha o mesmo mal a combater. O aproveitamento e correcção desses individuos pelo trabalho da lavoura ou da industria, em estabelecimentos apropriados, seri de efficazes e proveitosos resultados.

Muito se poderia conseguir nesse particular com a fundação de um estabelecimento disciplinar industrial nesta cidade para os menores de desesete annos, e com a creação de uma colonia penal agrícuola e industrial para os individuos que excedessem aquella idade (...).

Dia desses, eu mesma ouvi algo sobre falsos mendigos e pivetada. Nada muda! Pior é ver alguém repetir todo modernão algo sobre sistema penal que já o Campos Sales dizia! Que se pode concluir disso? A maior parte dos debate públicos são fruto da inércia preguiçosa e da pura topeirice histórica.

Outra coisa interessante da Mensagem é a preocupação com as finanças. Das cerca de 40 páginas, 12 tratam disso. É o assunto apresentado de forma mais extensa. Não deixa de ser um problema eterno também, não?

Agora, um observação. Não é engraçada a vigência das Ordenações Filipinas (pelo menos em parte) em 1900? O Campos Sales diz: "O Codigo das Ordenações Philipinas, por mais previdente e completo que tenha sido ao tempo da sua promulgação, já não póde traduzir as necessidades, os interesses, as ideas e os sentimentos da epoca actual." Segundo o Ronaldo Vainfas, só "o Código Civil vigente a partir de 1917 removeu as últimas determinações das antigas Ordenações no direito brasileiro". Eita ferro!

*Só o governo conservador inglês no início do séc. XIX. Ortega y Gasset, A rebelião das massas: "Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem - o obreiro industrial -, mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem agüentar, até onde possa, o crime. 'As pessoas conformam-se em se adaptar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade'. 'Em Paris - escreve John William Ward - têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road, a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a todas as maquinações de Fouché.'" Hoje (e há muito tempo) não é mais assim nem na Inglaterra. Basta ler o Telegraphy toda a semana para ver como o que mais tem por lá é Fouché redivivus.

Tuesday, February 02, 2010

Tempos paralelos

Disse João Ribeiro, na História do Brasil (14º edição):

O trabalho da inepcia por sua vez exagerava em hipérboles gigantescas os recursos e as belezas do país, modo de cortezia própria dos parvenus. Tudo no Brasil de então (de 1810 a 1820) no dizer de Eschwege, rios, fabricas, estradas, civilização dos indios, leis e planos eram obras gigantescas do homem ou da natureza; os documentos oficiais estavam prenhes de mentiras e estrondosos milagres.

O país era o primeiro do mundo e o talento dos seus filhos não tinha igual no planeta: ainda hoje floresce com o mesmo viço essa mentira patriótica, boçal e estúpida.

Entretanto, na época de D. João VI, quasi não brilha nenhum talento de imaginação, se exceptuarmos um ou dois poetas medíocres; houve, porém, eruditos como Cayrú, Conceição Veloso, Azeredo Coutinho, Moraes, o lexicografo, Hipólito da Costa, Baltazar Lisboa, etc.

Milhares de pessoas alheias de indiferentes á religião ou aos deveres militares eram naquela época feitas subitamente cavaleiros de Santiago ou comendadores de Cristo, ofendendo-se assim o decôro da tradição, menoscabando o espírito das instituições e fazendo grande mal aos próprios agaloados, mercieiros ou rústicos que, empavesados com os novos títulos, abandonavam o trabalho util e por si ou sua descendência encostavam-se ao orçamento.

Chega a ser chato observar o poder do hábito!

O J. M. de Carvalho escreveu um ensaio bem bacana sobre "o tema nacional na historiografia brasileira". Não tem muito a ver com esse post. Mas vale a pena ler.

Sunday, January 31, 2010

Infância

Hoje eu estava pensando em algumas diversões minhas de infância.

Desde pequena, gosto de bichos. Quando digo "bichos", não é só os nossos bichinhos fofos de estimação. Para usar um termo discoveriano, adoro a vida selvagem. O que não quer dizer que eu lá conheça muito do assunto. Mas isso sempre despertou a minha curiosidade. Quando eu era picurrucha, meus pais compravam para mim fascículos de O reino animal. Era uma coleção (acho que) da Editora Abril. Sempre tinha um deseínho do bicho, mais uma descrição sumária dele, hábitos alimentares, habitat e tal. Na introdução da revista nº1, havia até uma explicação bem sumária sobre a diferença entre vertebrados e invertebrados, teoria da evolução e coisa e tal. Foi assim que conheci bichos como o cachalote, o náutilo, o boi almiscarado e os lêmingues super-fofos. Depois lançaram outra coleção, Animais em extinção. Essa não era tããão legal.

Talvez você possa ter pensado assim: "Ah, ela devia gostar de biologia." Mas sabe que nem tanto? Eu era até uma boa aluna de biologia (exceto no 3ºano). Porém não me lembro de ter estudado com prazer uma única vez. Pelo contrário! Se não me engano, a primeira vez que percebi como o conteúdo escolar é maluco foi por causa da coitada da biologia! O problema nem era tanto a decoreba. Era o conteúdo a ser decorado. Dava nos nervos saber que o nosso futuro dependia da lembrança do nome dos tecidos das águas-vivas. Ou como minhocas se reproduzem. Eu só era boa aluna porque ela moleza.

É impressionante como conseguem transformar num saco medonho uma coisa tão interessante como biologia. Claro que o problema é mais amplo. Se o pessoal do MEC levasse o Hegel a sério, eles saberiam que há uma necessidade de o saber ser sistêmico. Não dá para você ensinar como se estivesse jogando resto de comida para uns vira-latas coitadinhos. Sem contar outras duas coisas. Uma é a justificação do que é ensinado. Da mesma forma que a necessidade de um imposto deve ser clara (a princípio) a um cidadão, a razão de se ministrar tal ou tal matéria também deveria ser clara (a princípio). Nada desse negócio de "porque é". Deveria ser clara para todo mundo até a estruturação do ensino como um todo. A outra coisa é a básica. Só deveria estudar algo mais avançado quem quer. Do contrário, o ensino vira mais um monstro burocrático. Veja o fogo no traseiro que é essa história de certificados. A pessoa faz um curso porque gosta. Ao mesmo tempo, ela sente a necessidade de provar à burocracia que fez o danado do curso. Isso é de matar. 

Eu também tinha interesse pela Bíblia. Taí uma coisa que nunca entendi bem. Quando cresci mais um pouquinho, o interesse sumiu. Nem queria saber de mais nada. Mas ter folheado-a quando pequena imprimiu uma forte impressão em mim. Pode parecer estranho, mas o Apocalipse era o livro que eu mais gostava! (Os outros eu conhecia muito pouco. Isso quando tinha chegado a folhear algum deles.) Anjos abrindo selos, rios se tornando sangue, os Quatro Cavaleiros, a Mulher e o Dragão, a Nova Jerusalém... Essas coisas todas me desconcertavam! O engraçado é que não me lembro de ter pedido que me explicassem aquelas coisas. Só ficava pensando em como devia ser assustador uma estrela cair nas águas e transformar a terça parte em absinto. Ou aquele negócio da marca da besta. Li com menos empolgação os primeiros capítulos de Gênesis (a criação e a queda). A tradução era do Pe. Antônio de Figueiredo. A edição tinha várias imagens de quadros com temas bíblicos. Caramba, eu adorava vê-los! Alguns ficaram na minha cabeça. Rembrandt (Lamentações de Jeremias, Sansão cegado, Cabeça de Cristo), Carl Bloch (Sansão move as rodas de uma azenha), Bosch (Coroação de espinhos), mais Giotto (Jesus abençoando no Trono) e Rubens (Anunciação e aquele do Daniel na cova dos leões).

Ninguém chegou para mim e disse: "Toma esse livro aí." Peguei porque estava ao meu alcance. Quero dizer, não só isso. Um livrão daquele, cheio de imagens legais, era bem convidativo... Não me lembro de meus pais me empurrarem muitos livros. Eles me davam de acordo com meu interesse. Só quem me empurrava livros era a escola. Quase sempre desagradáveis. Como deve ter acontecido com você.

O único livro que meus pais me empurraram foi um chamado Mamãe, como eu nasci?. Isso quando eu tinha uns 10 anos. Se eu tinha manifestado desejo de saber como nasci, nem faço idéia. Só sei que um belo dia eu estava folheando esse livrinho. Ele tinha vários desenhos. Era muito engraçada a parte em que o menino e a menina se, hm, examinavam (não juntos, é bom explicar). Havia um desenho de um rapaz com cara de bobo na banheira, segurando o próprio pinto. Na outra página, a moça se examinava com um espelhinho. Era engraçada também a parte em que um espermatozóide piscava (ele tinha uma carinha) para um óvulo (que não lembro se tinha carinha). Não sei se foi por causa desse livro que acabei arrumando o Relatório Hite, dois anos mais tarde. Não deixa de ser doido eu ter saído do Apocalipse para acabar em relatórios sobre sexualidade.

Wednesday, January 20, 2010

Homenagem aos pinguços

Já que mencionei bebida no post anterior...



Não exagerem! Se ficarem cheios de fogo achando que esse tipo de coisa é "sostegno e gloria d'umanità", Il Commendatore vai cear com vocês...

Sunday, January 17, 2010

Apanhado de notícias brasileiras

Quer ter uma idéia de como é o Brasil a partir da imprensa?

Segundo reportagem de 2004, "40% dos brasileiros não escovam os dentes". Eca, eca, eca. População porquinha, hein? Não sei quanto a você, mas sempre escovo os meus. Agora, o pessoal está mais preocupado é com celular: "Segundo o IBGE, entre 2005 e 2008, o número de usuários pulou de 36,6% para 53,8%. O valor corresponde a 86 milhões de pessoas." Imagina que beleza não deve ser pegar emprestado o celular de quem não escova os dentes. Eca, eca, eca.

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Uma informação (no mínino) curiosa: "80% do orçamento das Forças Armadas custeia folha de pagamento, diz pesquisa". Forças Armadas = órgão estatal = cabide de emprego. Mas ainda há um elemento bizarro na razão dos pagamento: “'Oitenta por cento do orçamento do Brasil ao longo do período estudado foi para pagamento de folha e desses 80%, 63% para pensionistas e inativos das Forças Armadas', revela o pesquisador" (negritos meus). O que isso significa? Montamos uma máquina militar cujo objetivo primário é proporcionar o maior bem-bom para os clientes dela. Isso sem precisar dar um único tiro. É o poder estatal a serviço do ócio.

Falando em ócio, uma passagem do livro (que todo mundo tinha que ler) O espírito das revoluções, do Meira Penna :

Reparei certa vez em Salvador que, num dia da semana, se pinhavam nas praias multidões de homens ociosos, como se nada tivessem a fazer, senão gozar das delícias estupendas da música, do sol e do mar. "A Bahia é boa terra, é o único lugar do Brasil", explicou-me uma amiga baiana, "onde os brancos trabalham para os pretos..." Cada um dispõe daquilo que deseja ou daquilo que merece, se assim determina a Dama Fortuna. Quem somente aprecia a praia, o carnaval e o jogo do bicho terá sempre praia, carnaval e jogo do bicho à disposição. Mas provavelmente morará em favela, a não ser que, por excepcional acaso, faça a quina da loto ou venda cocaína sem ser preso... (p.290)

Tal Salvador, tal Rio. Vou aproveitar para contar mais algumas coisas do gênero. Dia desses, fui parada por um carinha na entrada do banco. Carinha? Ele devia ter uns 1,85m. Era fortinho. Usava boné, camisa sem manga e bermudão. Típico uniforme de gente ociosa. Estava sentado próximo da entrada do banco. Ele: "Dona, a senhora pode me dar uma ajuda?" E estendeu a mão. Isso às 15h. Vai ver tenho cara de tia de malandro! Não sei se isso foi pior do que a vez em que um cara de rua cismou de me seguir. Apertei o passo. Ele idem. Parei e perguntei o que ele queria. Ele: "Aí, dona... Tô ali com uns parceiros na esquina, sabe? A gente tá querendo comprar uma cachacinha, mas tá sem dinheiro. Eu podia tá mentindo, dizendo que quero arrumar dinheiro pra comida, né? Tem como você dar uma força pra gente não?" Ou o dia em que vejo um monte de moleque soltando pipa num viaduto no meio da semana, por volta das 14h. Ou quando vejo uns adultos às 15h numa praça abandonada no Centro brincando de skate, no meio de semana. Ou quando vejo ao meio-dia uns caras enormes jogando bola também numa praça do Centro...

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Uma vez contei quantos botecos havia numa rua. Três botecos a duzentos passos. Se eu incluísse alguns outros próximos, aí seriam no mínimo seis botecos a quinhentos passos. Todos tinham fregueses.

É pé-sujo demais. Mas os donos do bar estão apenas satisfazendo a imensa demanda: "Um levantamento realizado pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo constatou que cerca de 15% da população brasileira é alcoólatra."

Não sei o que querem dizer com alcoólatra. Nem sei que história é essa de "constatou". Mas a experiência diz mesmo que não falta pinguço por aí. Quero dizer, pinguços e ociosos. Quanto aos que não escovam os dentes, espero nunca me encontrar com eles. Eca, eca, eca.

Haiti

Não tenho acompanhado o que vem sendo dito sobre a catástrofe no Haiti. Na verdade, nunca acompanhei nada sobre a presença brasileira no Haiti. Pode ser então que eu diga uma coisa que já disseram antes. O pior é que nem duvido que algum PSTU da vida já tenha dito o que vou dizer. Mas o que é que tenho a dizer? Simples. Macaco, olha o seu rabo.

O que mais a gente escuta é que os EUA só se meteram no Iraque por motivos escusos. Que mané achar as WMDs o quê! Que mané dar um pé na bunda de um ditador sangüinário o quê! Eles queriam... petróleo. Só isso. Petróleo. Sacrificaram não sei quantos milhares de pessoas por um desejo imperialista. Até me lembro de uma professora falar assim na aula: "Olha, é muito triste começar o dia sabendo de uma coisa dessas." Claro. Que coisa mais dolorosa se lamentar pelos coitados dos iraquianos numa sala de aula, de cabelo todo penteadinho, maquiagem ok, e depois gastar R$10 no almoço a quilo. Olha que essa dor toda ainda lhe renderia no fim do mês mais de R$3 mil na conta do banco. Não é de cortar o coração?

Os EUA são os príncipes da escrotice mundial. E o Brasil? Ah, nossa pátria é pacífica! Queremos só ajudar os pobres do mundo. Lembram do pessoal do Timor Leste? Então. Fomos lá salvá-los, por pura caridade. Depois nos metemos no Haiti. Não houve nem discussão pública séria a respeito. Como nunca houve sobre o Timor Leste. Sempre foi ponto pacífico. Se o governo tinha decidido ajudar o pessoal *oprimido* lá na casa do chapéu, não havia o que discutir. Ainda mais com a total aprovação da ONU. Nossa ajuda sempre foi humanitária (antes diriam "filantrópica"). Ponto. Nem o Timor nem o Haiti tinham quaisquer recursos a nos oferecer. Gastamos milhões de dólares para enviar engenheiros e soldados treinados para vacinar e dar comida pela mais pura caridade. Somos tão gentis com os haitianos que até oferecemos um espetáculo futebolístico. Tudo a troco de nada!

Com tanta boa vontade, só gente perversa teria a coragem de duvidar da filantropia brasileira. Acontece que não sou lá muito boazinha. Só uma pessoa selvagem (que nem eu) poderia pensar que esse papo de dar as mãos aos nossos irmãos haitianos é uma hipocrisia incrível. Logo diante de uma desgraça tão horrenda como esse terremoto, só uma criatura muito malvada (que nem eu) poderia lembrar da vez em que o Brasil deu as mãos para o governo genocida sudanês (também nosso irmão?) em plena ONU. Ou dos constantes elogios ao governo genocida de Cuba. Ou da vez em que nosso presidente disse que há um "excesso de democracia na Venezuela". Ou da nossa enorme simpatia pelo governo iraniano, cujo presidente quer matar judeus e já vive matando quem seja considerado inimigo da revolução islâmica. Só um monstro sem noção (que nem eu) poderia lembrar que aqui no Brasil há 50 mil homicídios por ano, embora o governo se preocupe mais em como resgatar as vítimas de um terromoto caribenho que talvez tenha matado entre 50 mil e 100 mil pessoas. Só alguém muito sacana (que nem eu) diria que é meio ridículo empreendermos esforços para construir uma hidrelétrica para Porto Príncipe, enquanto nosso próprio país vira e mexe é afetado por algum distúrbio energético. Enfim. Tanta boa vontade é para o Brasil botar a gigantesca busanfa numa cadeirinha permanente da ONU*. Só gente bem maligna (que nem eu) para criticar o Brasil, logo num momento em que o Haiti precisa tanto da nossa ajuda.

Ah, ajuda... Como não ando nada informada, não sei se já escreveram sobre os frutos da nossa intervenção no Haiti. Nem sei se alguém já a comparou com a intervenção dos EUA no Iraque. Quando uma bomba explode em Bagdá, sempre ouço: "Olha só como desestabilizaram o Iraque." Um professor mesmo já me disse algo assim. E o Haiti? É verdade que não entramos em guerra contra eles nem nada. Mas até que ponto nossa ajuda tem sido útil de verdade? Ou será que nem aqueles casos médicos em que dizem "o estado é grave, mas estável"?

Como chamar alguém que é todo indulgente para com os próprios atos, ao mesmo tempo que só atribui intenções diabólicas a quem pratica ações semelhantes às dele? Qual o nível de consciência de uma pessoa dessas? Macaco, olha o seu rabo.

*Não entendo os ganhos imediatos disso para nós. Até entendo a hipótese de os EUA tomarem o Iraque por causa do petróleo. O raciocínio é meio bizarro, mas consigo entendê-lo. Pelo menos os ganhos imediatos não são difíceis de se imaginar. Agora, e no nosso caso?

Update: Como não foi difícil de imaginar, já tinham falado coisa parecida antes de mim. E tornaram a falar.