Tuesday, November 10, 2009

Queda do muro de Berlim

No post anterior, indiquei a Declaração de Praga. (A propósito, você vai assinar quando?) Agora, começo com um trecho do Václav Klaus (um dos idealizadores da Declaração) sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim:

In the 1950’s the leading idea behind the European integration was to liberalize, to open-up, to remove barriers at the borders of individual European countries, to enable free movement of not only goods and services but of people and ideas around the European continent. It was a positive concept. It should continue and be promoted by all of those who have liberal (in European terminology), which means not statist or nationalistic, world-view or Weltanschaung.

The situation changed during the 1980´s and the decisive breakthrough was the Maastricht Treaty in December 1991. Integration had turned into unification, liberalization into centralization of decision making, into harmonization of rules and legislation, into the strengthening of European institutions at the expense of institutions in member states, into the enormous growth of democratic deficit, into post-democracy.


Por que é interessante? Justifico. Veja só as datas. Em 9/11/89, o muro caiu. Em 21/12/91, assinaram a dissolução da URSS. Legal, não? A liberdade parecia ter triunfado. Mas em 9/12/91, foram encerradas as últimas negociações para o Tratado de Maastricht. "Integration had turned into unification". Qual a relação entre as três datas? Com a palavra, sr. Vladimir Bukovsky (via The Brussels Journal):

In 1992 I had unprecedented access to Politburo and Central Committee secret documents which have been classified, and still are even now, for 30 years. These documents show very clearly that the whole idea of turning the European common market into a federal state was agreed between the left-wing parties of Europe and Moscow as a joint project which [Soviet leader Mikhail] Gorbachev in 1988-89 called our “common European home.”

The idea was very simple. It first came up in 1985-86, when the Italian Communists visited Gorbachev, followed by the German Social-Democrats. They all complained that the changes in the world, particularly after [British Prime Minister Margaret] Thatcher introduced privatisation and economic liberalisation, were threatening to wipe out the achievement (as they called it) of generations of Socialists and Social-Democrats – threatening to reverse it completely. Therefore the only way to withstand this onslaught of wild capitalism (as they called it) was to try to introduce the same socialist goals in all countries at once. Prior to that, the left-wing parties and the Soviet Union had opposed European integration very much because they perceived it as a means to block their socialist goals. From 1985 onwards they completely changed their view. The Soviets came to a conclusion and to an agreement with the left-wing parties that if they worked together they could hijack the whole European project and turn it upside down. Instead of an open market they would turn it into a federal state.

According to the [secret Soviet] documents, 1985-86 is the turning point. I have published most of these documents. You might even find them on the internet. But the conversations they had are really eye opening. For the first time you understand that there is a conspiracy – quite understandable for them, as they were trying to save their political hides. In the East the Soviets needed a change of relations with Europe because they were entering a protracted and very deep structural crisis; in the West the left-wing parties were afraid of being wiped out and losing their influence and prestige. So it was a conspiracy, quite openly made by them, agreed upon, and worked out.


E disse também Anatoliy Golitsyn:

The European Parliament might become an all-European socialist parliament with representation from the Soviet Union and Eastern Europe. 'Europe from the Atlantic to the Urals' would turn out to be a neutral, socialist Europe.

Outras pessoas têm feito análises semelhantes. Só que o Golitsyn impressiona mais, porque ele cantou a jogada com anos de antecedência. O Bukovsky apenas confirmou o que Golitsyn já havia dito. Mas o que deve ficar claro é que existe uma ligação entre a União Européia (como força política) e o projeto comunista. Isso exige uma análise da natureza do movimento comunista. Mas não vou fazer. Deixo a quem é mais sabido.

E o Muro? De novo, o Golitsyn disse com anos de antecedência:


"If 'liberalization' is successful and accepted by the West as genuine, it may well be followed by the apparent withdrawal of one or more communist countries from the Warsaw Pact to serve as the model of a 'neutral' socialist state for the whole of Europe to follow."

"If [liberalization] should be extended to East Germany, demolition of the Berlin Wall might even be contemplated."


Diante disso, não há alterntiva. Somos obrigados a reavaliar a importância da queda do Muro de Berlim. Por mais que a gente comemore o 9/11/09, a longo prazo já não dá para ser tão otimista. A vitória se transformou em melancolia. O jogo está virando. Para pior. No dia 3/11/09, um dos últimos opositores à União Européia foi vencido: "Vaclav Klaus, the Czech president, this afternoon signed the Lisbon treaty, finally completing the ratification process of the charter designed to transform Europe into a more unified and influential global player." A ameaça soviética foi trocada por um super-Estado europeu. Mas se o Golitsyn estiver certo, o super-Estado europeu é só parte do problema. No fundo, ainda há o comunismo.

A Declaração de Praga apareceu durante a luta do V. Klaus contra a assinatura do Tratado de Lisboa. Não foi à toa. Condenar o comunismo é um recado ao autoritarismo soft do projeto federalista europeu. Um é cria do outro. Acontece que o assunto não é apenas europeu. É nosso também. Os motivos são bastante óbvios. Apenas menciono o Foro de São Paulo (que o Olavo vem denunciando há muitos anos). Uma condenação total ao comunismo arruinaria o Foro. A questão é saber quando isso vai acontecer. Por enquanto, a marcha da criaão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Européias (URSSE) e da União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL) não vai parar.

URSS e URSSE/URSAL. Mestre e discípulo.

Monday, November 09, 2009

Prague Declaration on European Conscience and Communism

Condemn and teach about the crimes of Communism! Support the Prague Declaration.

Porque é um assunto nosso. (Ou para evitar que seja...)

Thursday, November 05, 2009

Duo seraphim

Youtube. Que beleza.



Duo Seraphim clamabant alter ad alterum:
Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth;
plena est omnis terra gloria ejus.

Tres sunt, qui testimonium dant in coelo:
Pater, Verbum et Spiritus Sanctus;
et hic tres unum sunt.

Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth;
plena est omnis terra gloria ejus.

Friday, October 30, 2009

Às 2h13

O Pedro mencionou o Memórias do subsolo. Conheço a fama do Dostoiésvki, afinal civilizada sou. Agora, é bom a gente ficar de olho. Desde Rousseau e as Confissões, nós (quero dizer, Paul Johnson e eu e talvez você) sabemos que falar mal de si mesmo pode ser sinônimo de golpe. Muitas vezes não deixa de ser outra forma de orgulho. (Algum santo já disse isso, não? Não lembro qual.) No caso do Rousseau, a dica é a opinião que ele tem do Pecado Original. Se a culpa não é do indivíduo, é da sociedade. Se é da sociedade, ele (Rousseau) é só uma vítima. Se a sociedade é a causa do mal, o mal pode ser combatido na sociedade. Aí chegamos num estágio bizarro, onde você pode se chamar de cocozão à vontade. Por quê? Quanto mais você se xingar, mais você estará afirmando sua inocência. Porque a culpa será sempre da societé. Malvada.

Já que o Pedro tem gostado tanto do Girard, seria legal ele comentar o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Do ponto de vista do Rousseau, o desejo mimético (até onde pude entender as explicações do Pedro) não é natural. É causado pela civilização. (Pelo que entendi desse post, Rousseau mesmo poderia ser analisado pela a teoria do duplo angélico. Mas isso é outro assunto.)

Blogueiro

Carl Spitzweg, O poeta pobre. Ou Blogueiro preparando um post.

Sunday, October 25, 2009

Influência esotérica

Então chega o professor e diz: "Porque vocês sabem... Qualquer estudo não deixa de ser uma tentativa de manipulação da sociedade. Diz muito do cara envolvido." Ok. Boa parte da aula era sobre a influência da concepção de Providência calvinista na teoria política de Althusius (1563-1638). Se o professor fosse um calvinista, beleza. Seria uma tentativa bizarra de influenciar a sociedade. Mas eu até que entenderia. Agora, o homem é ateu. Já disse mil vezes que não é ateu militante. Que tipo de influencia ele procura exercer? Para mim, é como estudar cinemática para dar um pedala-Robinho.

É um mistério. Soa como o Petrarca e o seu amor estranho. Já que não conquistou a Laura-concreta, ele vai escrever trocentos poemas sobre a Laura-idéia. Então se o cara não consegue nem se tornar síndico do prédio, ele se vingará ensinando às gerações mais jovens as idéias políticas de um calvinista holandês do tempo do ronca.

Pode ser uma manipulação às avessas. Como se dissesse: "Não quero saber nada de você, [sociedade] nojentinha." Aí o carioca vai falar sobre os diferentes usos da palavra "soma" na Grécia entre os séc. IX e IV a.C. Ou vai se preocupar com a concepção de verdade na Etiópia entre 312-528. Tudo como se estivesse se mandando para a Arcádia. Não tenho nada contra. Pelo contrário. Universidade tem que ser mesmo o abrigo do inútil. (Entenderam isso de formas um pouquinho diferentes, até pessoais. Deixa quieto.) Seria uma manipulação esquisitinha. Método passivo-agressivo? Não seria mais fácil pensar que o estudioso pesquisa sem grandes motivos ocultos? Por que se apegar ao mais inusitado? É tão maluco imaginar que alguém estuda pelo prazer do estudo?

Saturday, October 24, 2009

Vivo sin vivir en mí

Da flor de Ávila. Modelo para todos nós.

(Versos nacidos del fuego del amor de Dios que en sí tenía)

Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.

Esta divina prisión
del amor con que yo vivo
ha hecho a Dios mi cautivo,
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión
ver a Dios mi prisionero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué vida tan amarga
do no se goza el Señor!
Porque si es dulce el amor,
no lo es la esperanza larga.
Quíteme Dios esta carga,
más pesada que el acero,
que muero porque no muero.

Sólo con la confianza
vivo de que he de morir,
porque muriendo, el vivir
me asegura mi esperanza.
Muerte do el vivir se alcanza,
no te tardes, que te espero,
que muero porque no muero.

Mira que el amor es fuerte,
vida, no me seas molesta;
mira que sólo te resta,
para ganarte, perderte.
Venga ya la dulce muerte,
el morir venga ligero,
que muero porque no muero.

Aquella vida de arriba
es la vida verdadera;
hasta que esta vida muera,
no se goza estando viva.
Muerte, no me seas esquiva;
viva muriendo primero,
que muero porque no muero.

Vida, ¿qué puedo yo darle
a mi Dios, que vive en mí,
si no es el perderte a ti
para mejor a Él gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle,
pues tanto a mi Amado quiero,
que muero porque no muero.




Bernini, O êxtase de Santa Teresa.

De torrente

Nós, pessoas-maravilhosas-amantes-de-filosofia-clássica-e-literatura-estrangeira-e-tudo-de-bom-gosto (de Bach a cristianismo highbrow), combatemos putinhas a breguice atmosférica. Os tradicionalistas de Internet fazem coisa parecida. (O seu coração queima pela missa dos tempos de Dom João Charuto? Só a Idade Média presta. A verdade está subtendida na doutrina perene implícita em todas as civilizações tradicionais. Tudo revelado nos manuscritos de Prestes João, grande intelectual. Não sabia? Pague uma Internte a cabo já. Está tudo na rede, 2009. Leia comendo chokito.)

Prestes João, nosso modelo de intelectual.

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A abstração liberal exorciza os demônios. Lá no fundo, todo demônio passou num concurso público infernal. O negócio é descer o porrete austríaco nos energúmenos, como fez A. Schwarzenegger contra o Predador. (Se o negócio for na base do vale-tudo, dá até para usar o sistema comunista. Afinal, Marx era satânico-liberal e não sabia.) Sejamos reacionários. Podemos copiar o modelo da Federação de Estados da Micronésia.

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Vamos ver de All-Star (ou não) o último filme do Q. Tarantino? Dá boas discussões sobre história. De preferência, nas comodidades do shopping. Se você preferir, podemos esperar a próxima segunda. Aí a gente desconstrói a razão usando argumentos racionais na a.k.a.demia.

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Mas o intelectual tem que passar bem a roupa. Tem que saber dobrar também. (Lavar a louça e cozinhar pegam bem.) Como preparação para a faculdade de humanas, prova de habilidade específica do lar. No exame específico, limpar a bundinha de um neném e trocar a fralda. Você acha que THEODOR LUDWIG WIESENGRUND-ADORNO passaria?

Se o cara nem sabe lavar a roupa direito, vai lá saber os mistérios ensinados por Prestes João?

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A cultura é uma gorda enorme. Ainda por cima, carregada de maquiagem. Olhando assim, ela é modelo para o quê/de quem? Qual o sentido de gastar a maior bufunfa para ficar assim? É melhor trabalhar como atendente de telemarketing. Boa tarde, o que o senhor deseja?

Cultura.


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Enquanto isso, a gente vai zoando nos blogs. Isso sim é atividade séria. Sem ironia. Quero dizer, não muita. Até acho que o Nietzsche daria um bom blogueiro.

Thursday, October 22, 2009

Menino passarinho acha que vivemos na "era da transparência"

Foi o que disse um tal de Flávio Castro, segundo o Comunique-se.

“A crise financeira aumentou a pressão para uma clareza nas empresas. Essa é a era da transparência”, declarou o jornalista Flávio Castro, especialista em gerenciamento de crise e reputação Castro, durante o evento "Efeito Obama", em São Paulo. Ele mencionou o resultado de pesquisa publicada pelo The Economist e realizada junto a executivos de grandes empresas. (A redação não é culpa minha.)


Você consegue entender o que ele quis dizer com "pressão para uma clareza"? Se ela "aumentou", significa que já havia? Mas quem pressiona/vem pressionando? (Ah, essas atribuições genéricas...) E de que crise estamos falando mesmo? Para mim, esse F. Castro está dizendo "blábláblábláblá" e ganhando prestígio com isso. Afinal, deve ser bonito ser conhecido como "especialista em gerenciamento de crise e reputação". Sem contar essa história de vivermos numa "era de transparência". Como assim? Como pode haver tanta transparência com tantas fraudes? Ou será que corrupção governamental não conta? Se houvesse tantas pressões por transparência (o jornalista acha que a gente é trouxa), por acaso o Lula continuaria com a popularidade que tem?

Na menos pior das hipóteses, o Flávio Castro é o Menino Passarinho da música do Luiz Vieira.

Exposição positivista do Rio de Janeiro II

O mais engraçado é que a contagem contínua do número dos mortos só acontece depois das ações da polícia.

Mas tem algo ainda mais estranho. (Nem é estranho. Mas vá lá.) Um problema policial é tratado como problema político. Ou então é tratado como questão educacional. Você pode até perceber que existe uma ligação entre a política, a educação e a bandidagem. Só que são domínios diferentes. Se é assim, então o método de um não serve para o outro. Você não combate o crime ensinando Camões a gente armada! Se está difícil de entender, vou dar um exemplo didático. De um lado, um bandido portando um revólver. Do outro, você e as Rimas. Se você for assaltado, recitar as Rimas não vai adiantar muita coisa. Agora, ignorar uma coisa dessas não é só questão de burrice mortal. É premeditação. Meio suicida, mas é.