Hoje eu estava pensando em algumas diversões minhas de infância.
Desde pequena, gosto de bichos. Quando digo "bichos", não é só os nossos bichinhos fofos de estimação. Para usar um termo discoveriano, adoro a
vida selvagem. O que não quer dizer que eu lá conheça muito do assunto. Mas isso sempre despertou a minha curiosidade. Quando eu era picurrucha, meus pais compravam para mim fascículos de
O reino animal. Era uma coleção (acho que) da Editora Abril. Sempre tinha um deseínho do bicho, mais uma descrição sumária dele, hábitos alimentares, habitat e tal. Na introdução da revista nº1, havia até uma explicação bem sumária sobre a diferença entre vertebrados e invertebrados, teoria da evolução e coisa e tal. Foi assim que conheci bichos como o cachalote, o náutilo, o boi almiscarado e os lêmingues super-fofos. Depois lançaram outra coleção,
Animais em extinção. Essa não era tããão legal.
Talvez você possa ter pensado assim: "Ah, ela devia gostar de biologia." Mas sabe que nem tanto? Eu era até uma boa aluna de biologia (exceto no 3ºano). Porém não me lembro de ter estudado com
prazer uma única vez. Pelo contrário! Se não me engano, a primeira vez que percebi como o conteúdo escolar é maluco foi por causa da coitada da biologia! O problema nem era tanto a decoreba. Era o conteúdo a ser decorado. Dava nos nervos saber que o nosso futuro dependia da lembrança do nome dos tecidos das águas-vivas. Ou como minhocas se reproduzem. Eu só era boa aluna porque ela moleza.
É impressionante como conseguem transformar num saco medonho uma coisa tão interessante como biologia. Claro que o problema é mais amplo. Se o pessoal do MEC levasse o Hegel a sério, eles saberiam que há uma necessidade de o saber ser sistêmico. Não dá para você ensinar como se estivesse jogando resto de comida para uns vira-latas coitadinhos. Sem contar outras duas coisas. Uma é a justificação do que é ensinado. Da mesma forma que a necessidade de um imposto deve ser clara (a princípio) a um cidadão, a razão de se ministrar tal ou tal matéria também deveria ser clara (a princípio). Nada desse negócio de "porque é". Deveria ser clara para todo mundo até a estruturação do ensino como um todo. A outra coisa é a básica. Só deveria estudar algo mais avançado quem quer. Do contrário, o ensino vira mais um monstro burocrático. Veja o fogo no traseiro que é essa história de certificados. A pessoa faz um curso porque gosta. Ao mesmo tempo, ela sente a necessidade de provar à burocracia que fez o danado do curso. Isso é de matar.
Eu também tinha interesse pela Bíblia. Taí uma coisa que nunca entendi bem. Quando cresci mais um pouquinho, o interesse sumiu. Nem queria saber de mais nada. Mas ter
folheado-a quando pequena imprimiu uma forte impressão em mim. Pode parecer estranho, mas o Apocalipse era o livro que eu mais gostava! (Os outros eu conhecia muito pouco. Isso quando tinha chegado a folhear algum deles.) Anjos abrindo selos, rios se tornando sangue, os Quatro Cavaleiros, a Mulher e o Dragão, a Nova Jerusalém... Essas coisas todas me desconcertavam! O engraçado é que não me lembro de ter pedido que me explicassem aquelas coisas. Só ficava pensando em como devia ser assustador uma estrela cair nas águas e transformar a terça parte em absinto. Ou aquele negócio da marca da besta. Li com menos empolgação os primeiros capítulos de Gênesis (a criação e a queda). A tradução era do Pe. Antônio de Figueiredo. A edição tinha várias imagens de quadros com temas bíblicos. Caramba, eu adorava vê-los! Alguns ficaram na minha cabeça. Rembrandt (
Lamentações de Jeremias,
Sansão cegado,
Cabeça de Cristo), Carl Bloch (
Sansão move as rodas de uma azenha), Bosch (
Coroação de espinhos), mais Giotto (
Jesus abençoando no Trono) e Rubens (
Anunciação e aquele do Daniel na cova dos leões).
Ninguém chegou para mim e disse: "Toma esse livro aí." Peguei porque estava ao meu alcance. Quero dizer, não só isso. Um livrão daquele, cheio de imagens legais, era bem convidativo... Não me lembro de meus pais me empurrarem muitos livros. Eles me davam de acordo com meu interesse. Só quem me empurrava livros era a escola. Quase sempre desagradáveis. Como deve ter acontecido com você.
O único livro que meus pais me empurraram foi um chamado
Mamãe, como eu nasci?. Isso quando eu tinha uns 10 anos. Se eu tinha manifestado desejo de saber como nasci, nem faço idéia. Só sei que um belo dia eu estava folheando esse livrinho. Ele tinha vários desenhos. Era muito engraçada a parte em que o menino e a menina se, hm, examinavam (não juntos, é bom explicar). Havia um desenho de um rapaz com cara de bobo na banheira, segurando o próprio pinto. Na outra página, a moça se examinava com um espelhinho. Era engraçada também a parte em que um espermatozóide piscava (ele tinha uma carinha) para um óvulo (que não lembro se tinha carinha). Não sei se foi por causa desse livro que acabei arrumando o
Relatório Hite, dois anos mais tarde. Não deixa de ser doido eu ter saído do Apocalipse para acabar em relatórios sobre sexualidade.